Respeitosas reverências ao Rishi Kanada (Aulukya e Kasyapa), fundador do sistema Vaiseshika de filosofia.
Introdução
O sistema Vaiseshika recebe seu nome de Visesha ou particularidade (diferença), característica diferenciadora das coisas. Os aforismos de Kanada contêm a essência da filosofia Vaiseshika onde o principal tema tratado é Visesha, um dos seis Padarthas ou categorias pré-definidas por Kanada.
O Nyaya e o Vaiseshika
O Vaiseshika e o Nyaya concordam em seus princípios essenciais, tais como a natureza e as qualidades do Self (Atman) e da teoria atômica do universo. Como complemento do Nyaya, o vaiseshika tem por objetivo principal a análise da experiência. Começa organizando suas investigações através de categorias (Padarthas), ou seja, a enumeração de certas propriedades gerais ou atributos que podem ser associados às coisas existentes. Formula concepções gerais, que se aplicam às coisas conhecidas, quer pelos sentidos, quer por inferência, ou pela autoridade.
Os Aforismos de Kanada
Os Kanada sutras são compostos por dez capítulos. O primeiro capítulo trata de todos Padarthas ou categorias. No segundo capítulo, Kanada definiu substância. No terceiro capítulo, apresentou uma teoria da alma (Atman, Self) e da percepção interior. No quarto capítulo, analisou o corpo e seus constituintes. No quinto capítulo, definiu Karma ou ação. No sexto capítulo, considerou Dharma ou virtude de acordo com escrituras. No sétimo capítulo, definiu atributo e Samavaya (inerência). No oitavo capítulo, analisou a credibilidade do conhecimento, desde sua origem. No nono capítulo, definiu o entendimento particular ou concreto. E, no décimo capítulo, descreveu as diferenças entres os atributos da alma.
Este sistema está, essencialmente, comprometido com a definição dos Padarthas, no entanto, Kanada abre o assunto com considerações sobre Dharma porque Dharma é a raiz do conhecimento, a essência dos Padarthas. O primeiro Sutra é: Yatobhyudayanihsreyasa-siddhih sa dharmah - Dharma é o que consagra e confere o Supremo Bem ou Moksha (liberação do sofrimento, da ignorância, e do sansara).
Padarthas ou As sete categorias
Padartha denota literalmente o significado de uma palavra. Mas aqui se refere a uma substância que é discutida na filosofia. Um Padartha é um objeto que pode ser pensado (Artha), e nomeado (Pada). Todas as coisas que existem, que podem ser percebidas e nomeadas, todos os objetos da experiência, são Padarthas. Substâncias compostas são dependentes e transitórias, mas substâncias simples são eternas e independentes.
O Padarthas do Vaiseshika são os seguintes: (i) Substância (Dravya), (ii) Qualidade ou propriedade (Guna), (iii) Ação (Karma), (iv) generalidade das propriedades (Samanya), (v) Particularidades (Visesha), (vi) Inerência ou eterna e íntima relação (Samavaya), e (vii) Não-existência ou negação da existência (Abhava).
As três primeiras categorias, substância, qualidade e ação têm uma objetiva existência real. As três seguintes, generalidade, particularidade e inerência são categorias lógicas. Elas são produtos da discriminação intelectual. Kanada enumerou apenas seis categorias, a sétima foi adicionada por autores posteriores.
Primeira categoria, substância (Dravya)
Terra, água, fogo, ar, éter, tempo, espaço, alma e mente são os nove Dravyas ou substâncias. As primeiras quatro e a última são consideradas atômicas. As quatro primeiras são ao mesmo tempo eternas e não eternas; não-eternas em relação aos seus diversos compostos e eternas em relação aos seus constituintes atômicos fundamentais.
Mente é uma substância eterna. Não pode permear todas as partes como a alma, só pode admitir apenas um pensamento de cada vez, entretanto é atômica.
Segunda categoria, qualidade ou propriedade (Guna)
Existem dezessete qualidades inerentes às nove substâncias: Cor (Rupa), sabor (Rasa), cheiro (Gandha), tato (Sparsa), números (Sankhya), medidas (Parimanani), distinção ou individualidade (Prithaktvam), conjunção e desconexão (Samyoga-vibhagam), precedência e subseqüência (Paratva-aparatva), intelecção ou compreensão (Buddhayah), prazer e dor (Sukha-duhkha), atração e aversão (Ichha-dvesha), e volição (Prayatnah). Os outros sete são considerados implícitos: gravidade, fluidez, viscosidade, capacidade, mérito, demérito e geração do som (vinte e quatro no total). Dezesseis dessas qualidades pertencem às substâncias materiais. As outras oito: compreensão, volição, desejo, aversão, prazer, dor, mérito e demérito são propriedades da alma.
A terceira categoria, Karma ou ação, compreende cinco espécies de ações: ascensão ou lançar para cima, descensão ou lançar para baixo, contração, expansão e movimento.
A quarta categoria, Samanya ou generalidade das propriedades, tem dois aspectos: (I) maior e menor generalidade e (II) gênero e espécie.
A quinta categoria, Visesha ou particularidade, pertence às nove eternas substâncias da primeira categoria, todas têm uma eterna diferença fundamental que permitem a distinção entre umas e outras. Em razão disso, o sistema é chamado Vaiseshika.
A sexta categoria, Samavaya ou inerência, é apenas de um tipo. É a co-inerência entre uma substância e as suas qualidades, entre gênero ou espécie e seus particulares, entre qualquer objeto e a idéia geral relacionada, é considerada uma entidade real.
Existem quatro tipos de Abhava, a sétima categoria: não-existência prévia, cessação da existência, não-existência mútua e absoluta não-existência.
O conhecimento da Padarthas é o meio de alcançar o bem supremo. O Supremo bem resulta do conhecimento produzido por um particular Dharma, a partir da essência dos Padarthas, por meio de suas semelhanças e diferenças.
As deficiências do princípio de Adrishta não permitiram a Kanada referir-se abertamente a Deus em seus Sutras. Acreditava que a formação do mundo foi causada por Adrishta, o incognoscível poder dos Karmas. Ele vincula as atividades primordiais dos átomos e das almas ao princípio da Adrishta.
Os seguidores de Kanada postularam como a causa eficiente do mundo, a ação de Deus e que os átomos são a causa material do universo.
Os inimagináveis átomos não têm poder e inteligência para governar esse universo de forma ordenada. Certamente, as atividades dos átomos são regidas por um onisciente e onipotente Deus. A inferência e as escrituras forçam-nos a admitir Deus. Qual é a inteligência que possibilita Adrishta operar? Essa inteligência é Deus. Os cinco elementos são os efeitos. Eles devem ser precedidos por algo que tenha conhecimento deles. Esse - algo - é Deus. Deve haver um autor para os Vedas, pois o conteúdo dos Vedas não contém erros. O autor que não comete enganos deve ser um Ser onisciente.
As almas perdem a inteligência no estado de dissolução. Então elas não podem controlar as atividades dos átomos. Como não existe nenhuma fonte de movimento dentro do átomo, deve haver um primeiro motor para movimentar o átomo. O primeiro motor é o Criador ou Deus.
Teoria Atômica do universo
No sistema Vaiseshika, supõe-se que a formação do mundo seja o produto da agregação de átomos. Estes átomos são inúmeros e eternos. Eles são eternamente agregados, desintegrados e re-integrados pelo poder de Adrishta. Um átomo é definido como - algo existente, sem causa, e eterno. É infinitamente pequeno, invisível, indivisível, intangível e imperceptível pelos sentidos. Cada átomo tem um Visesha ou eterna essência em si próprio. A primeira combinação destes átomos é um agregado de dois (Dvyanu, dyad). Três deles, novamente combinados como partícula, chamada Trasarenu (Tríade), se assemelha a uma partícula atravessada por um raio de luz que tem sua magnitude revelada.
Há quatro classes de Paramanus: paramanus de terra, da água, do fogo e do ar. Os átomos individuais combinam-se uns com os outros, e se desintegram novamente depois de algum tempo.
A cosmogonia do Vaiseshika é dualista, ao assumir a existência de átomos eternos independentes de almas eternas. O Vaiseshika foi incapaz de estabelecer, exatamente, uma relação positiva entre a alma e matéria.
Corpo e alma
O corpo é sutil no Pralaya e manifesto na criação. O tempo, o lugar, e as circunstâncias do nascimento, a família e a duração da vida são todos determinados por Adrishta.
As almas individuais são eternas, múltiplas, eternamente separadas umas das outras, distintas do corpo, da mente e dos sentidos; e ainda capazez de apreensão, volição, desejo, aversão, prazer, sofrimento, mérito e demérito. Elas são infinitas, onipresentes e se difundem por todo espaço.
A alma humana é a mesma tanto em New York como em Mumbai, embora somente possa sentir agir quando está presente em algum corpo. A alma e a mente não são objetos de percepção.
A alma é absolutamente livre de todas as ligações com as qualidades no estado de Moksha ou libertação. Neste estado ela recupera a suas condições originais de independência.
Nascimento, morte e de salvação
A conjunção da alma com o corpo, sentidos e vida, produzidas por Dharma e adharma, é chamada de nascimento, e disjunção de corpo e mente produzidas por elas é chamada de morte.
Escravidão e libertação
Prazer e dor resultam do contato da alma com os sentidos, mente e objetos.
Do prazer surge o desejo. Do prazer derivado do gozo de guirlandas de flores, do perfume de sândalo, de mulheres e de outras afinidades, Raga (desejo) é reproduzido sucessivamente em busca de prazeres semelhantes ou como meio para obtê-los. A partir da dor causada por cobras, escorpiões, espinhos e similares, surge aversão em relação a essas coisas ou às suas fontes.
Uma forte impressão é produzida pela constante ou habitual contato com determinados objetos, e.g., um triste amante não correspondido, vê sua amada em cada objeto. Aquele que foi picado por uma serpente vê cobras por toda parte, por conta da forte impressão causada pela picada da serpente.
Ilusões que levam à Escravidão
Desejo (Raga), aversão (Dvesha) e paixão (Moha) são chamados de ilusões (Doshas), são incentivos à atividade que servem para vincular o ator a este mundo. Gautama também diz: - Erro tem como característica, o estímulo às atividades e ocupações materiais- (Nyaya Sutras, I-1-xviii).
O conhecimento que leva à liberação
Conhecimento intuitivo do Self destrói o falso conhecimento. Por conseguinte, atração, aversão, estupidez ou Moha e outros enganos desaparecem. Conseqüentemente, a atividade também desaparece. Conseqüentemente, o nascimento causado pela ação não mais ocorrerá. Por conseguinte, a dor vinculada ao nascimento também desaparece.
Nota dos editores:
Tudo Sobre o Hinduísmo por Sri Swami Sivananda destina-se a satisfazer as necessidades daqueles que querem ser introduzidos às várias facetas dessa jóia que é Hinduísmo. O livro, publicado pela primeira vez em 1947, foi reorganizado em forma mais conveniente, com adições úteis, e agora está pronto para a sua quinta edição. Fazemos votos para que todos os estudantes sérios da Filosofia Hindu encontrem um livro útil e interessante.
